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"Cala-te pá"

Na minha “carreira” musical muitos episódios engraçados sucederam, o que agora vos conto decorre numa fase muito forte do nosso percurso em que as actuações surgiam regularmente e bem pagas contrariamente ao estatuto de banda desconhecida.
O espectáculo estava agendado para as festas da Amadora, íamos tocar num campo de futebol com os GNR, Santos & Pecadores e com a Fúria do Açúcar, 4 bandas numa só noite, era o tempo dos saudosos bons orçamentos das Câmaras Municipais.
Estávamos de facto ansiosos com essa actuação.

O problema com as entidades patronais de cada um de nós ficou resolvido com 2 dias de férias e assim lá partimos todos catitas num monovolume com motorista e tudo.

Normal seria que, ao passarmos por Leiria, a temperatura subisse uns 2 graus mas naquele dia baixou e surgiram umas nuvens cinzentas como pré-aviso de que algo não iria correr muito bem, nada abalava o nosso entusiasmo, chegados ao recinto o ego aumentou ainda mais… inesperadamente o público que já lá estava gritou e bateu palmas mal saímos da Sharan.
Depressa perceberam que não eram as ilustres vedetas que tocariam nessa noite mas sim os menos famosos de todos ainda assim continuaram com as palmas e com cânticos usados em jogos de futebol… estávamos radiantes… queríamos tocar.

As nuvens decidiram confirmar o pré-aviso e começou a chover em pleno sound-check dos GNR.
O sound-check é o “fazer som” antes das actuações para que tudo fique equilibrado e soe bem, os últimos a actuar são os primeiros a fazer o som e por essa ordem seríamos os últimos a fazer som porque iríamos ser os primeiros a actuar.
Na música ao vivo o estatuto é medido assim o último a tocar é habitualmente a banda mais consagrada.

A chuva atrasou tudo, mesas de som e restantes aparelhagens tapadas em stress, o público que nos aplaudiu desapareceu do local mas o pior estava para vir, a Fúria do Açúcar e nós apesar de integralmente pagos não actuaríamos nessa noite devido ao grande atraso no sound-check.
Eu estava profundamente triste com a situação, tinha divulgado tanto e orgulhosamente o evento que tinha grande parte dos familiares lisboetas na assistência, era daqueles dias em que musicalmente sabíamos que iria correr bem.

Depois do jantar com os Santos & Pecadores e com a Fúria do Açúcar e depois de assistir às actuações dos eleitos decidimos ir para o hotel, como rapazolas poucos tinham tido a experiência prévia de ter estado num hotel de 4 estrelas… tudo era novo e espectaculamente grandioso.
Na manhã seguinte o nosso manager Rui Martins foi fazer o check-out, vendo-o muito perturbado dirigi-me a ele e perguntei-lhe o que se passava… “eh pá um dos quartos tem um adicional de oito contos e tal de HOT TV e MINI BAR”… “andam a brincar pá?”… "nunca viram umas mamas?"... “não sabem que isto é caro pá?”.
A cara de aflitos de uns denunciou-os, os restantes riam perdidos, e ele lá continuou dirigindo-se ao balcão “vieram a Lisboa ver HOT TV e esvaziar o MINI BAR e o Rui é que paga”.

“Oh Rui só vimos um bocadinho”
“Cala-te pá”

P.S. Alguns anos mais tarde a cena (mais ou menos igual) repetiu-se mas num contexto diferente da minha vida.

Para quem ainda não conhece o blogue dos Icon Vadis pode ler esta e outras histórias AQUI.

1 Comment:

  1. João Banderas Nogueira said...
    Então conheces-te os autores e intérpretes da minha música "Hino" e não dizias nada ... francamente ... pá.

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